O osso de Goethe e os primórdios da morfologia

Opitz JM. Goethe’s bone and the beginnings of morphology. Am J Med Genet A. 2004; 126(1): 1-8.

A biologia, como disciplina per se e sua pauta, parece não ter se sobrecarregado tanto em seus primórdios do neo-Platonismo quanto a morfologia, sua subespecialidade, conceitualizada ao mesmo tempo por Goethe e Burdach. Uma das razões pode ter sido de o biólogos serem então considerados como “meros” naturalistas, “fazendo” anatomia e embriologia, criando animais e trabalho de campo (como fizeram Darwin, Wallace, Bateson e uma legião de outros durante o século XIX), enquanto os, talvez mais elitistas, morfologistas, ab initio se dedicaram à origem, até mesmo para análise kantiana das causas do desenvolvimento e sua variabilidade dentro das e entre as espécies. Como Goethe incluiu o desenvolvimento anormal das plantas em seus estudos, sua definição de morfologia como uma ciência da forma, formação e transformação dos organismos vivos pode ser modificada para incluir o conceito de má formação, apesar da análise embriológica e comparativa da má formação dos vertebrados/mamíferos ter iniciado realmente um pouco mais tarde com o jovem Meckel. Devido ao significado anexado por seus contemporâneos franceses ao termo transformiste (eventualmente definido como evolução) pode-se cair em erro ao considerar Goethe como um profeta da “descendência”; ele não foi, se referindo primariamente ao estado contínuo de fluxo dos seres vivos. Entretanto, Goethe e Burnach independentemente cunharam o conceito da morfologia e definiram sua pauta, cada vez mais libertos da Naturphilosophie, uma pauta que dominava a biologia do século XIX, mas que não chegou a ser realizada na sua análise casual da forma e sua formação até o século XX, depois de Mendel, Darwin e os pioneiros da embriologia experimental (a.o. Roux, Driesch, Spemann, Vogt). Em sua descoberta do osso inter­maxilar em humanos (o osso de Goethe), ele teve um insight surpreendente, em oposição à sabedoria convencional, a respeito da similaridade anatômica, conseqüentemente relativa ao desenvolvimento, de primatas/mamímefos. Durante sua vida, isso ainda era chamado de analogie por seu grande contemporâneo francês Etienne Geoffroy St-Hilaire, que na verdade quis dizer o que Owen mais tarde denominou homologia, que se tornou um dos argumentos mais poderosos de Darwin para a descendência. Um caso de uma pérola encontrada por uma galinha cega? Definitivamente não; Goethe tinha seu nariz perto demais do chão para ter perdido qualquer uma das principais tendências intelectuais nas “ciências da vida” no fim do século XVIII/início do XIX; mas ele era por demais um amador para ter tido o tipo de insights de grandes planos concedidos a von Baer, Mendel e Darwin.

Palavras-chave: Goethe; morfologia; anatomia; osso inter­maxilar; forma; formação; transformação; má formação

Artigo original: Wiley InterScience [Inglês]